Dólar vai a R$ 5,22, maior nível desde março, com aversão ao risco no exterior

28/09/2026 às 17:46 atualizado por Antonio Perez - Estadão
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Alinhado à onda global de fortalecimento da moeda norte-americana, o dólar abriu a semana em alta firme frente ao real e voltou a fechar acima de R$ 5,20, nos maiores níveis desde o fim de março. Embora haja cautela com o quadro eleitoral doméstico, com investidores absorvendo medidas recentes do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em especial a proibição das bets, a formação da taxa de câmbio está mais ligada ao ambiente externo, observam operadores.

O impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã para o encerramento do conflito no Oriente Médio e na reabertura total do Estreito de Ormuz mantém as cotações do petróleo em níveis elevados. Temores de mais pressões inflacionárias, em um quadro de dados fortes de atividade nos EUA e falas duras de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) nos últimos dias, jogaram as taxas dos Treasuries para cima, castigando divisas emergentes.

"A expectativa de mais aumento de juros pelo Fed levou a um fortalecimento do dólar frente a todas as outras moedas nos últimos dias. E a preocupação com a inflação não está relacionada apenas à alta do petróleo. Há questões de migração, que afetam a mão de obra, e o efeito das tarifas", afirma o economista Fabrizio Velloni, ressaltando que há muitas dúvidas sobre como o presidente dos EUA, Donald Trump, vai lidar com a situação no Oriente Médio à medida que se aproximam as eleições parlamentares de meio de mandato, no início de novembro.

Pela manhã, com a frustração das expectativas de algum entendimento entre EUA e Irã no fim de semana, o dólar superou os R$ 5,22. Diante da moderação dos preços da commodity, após informações de acenos do presidente Donald Trump ao Irã, houve um leve alívio ao longo da tarde.

A moeda voltou a acentuar os ganhos na reta final da sessão e terminou o dia em alta de 0,86%, a R$ 5,2265 - maior valor de fechamento desde 30 de março. A divisa acumula alta de 0,90% em setembro, após valorização de 2,16% em agosto.

O real, que costuma sofrer mais em picos de aversão ao risco, apresentou perdas inferiores às de outras divisas latino-americanas. Apesar de pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira mostrar que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou a liderança numérica em eventual segundo turno, a percepção é de uma disputa muito apertada. Ambos aparecem com 42% das intenções de voto, ao passo que na sondagem anterior, Flávio tinha 42% e Lula, 41%.

Velloni avalia que as medidas recentes adotadas pelo governo, como o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, apontam para uma piora das contas públicas, mas não se refletem no aumento do prêmio de risco embutido na moeda brasileira pela perspectiva de alternância de poder, dado o acirramento da corrida presidencial. "A expectativa de que a oposição pode realmente vencer as eleições faz com que o real não se desvalorize como os pares. Mas devemos ter um aumento da volatilidade nesta semana com um jogo mais pesado nas campanhas dos candidatos", afirma.

Para o estrategista-chefe de câmbio da BMO Capital Markets, Mark McCormick, os mercados parecem "estar precificando" um determinado resultado mesmo em meio a uma disputa muito acirrada. "A narrativa é simples. Lula é menos favorável ao mercado, enquanto Flávio está associado ao ajuste fiscal. Uma vitória de Flávio pode não ser positiva para a moeda, além de um rali inicial", afirma McCormick, ressaltando que eventual "maior credibilidade fiscal poderia reduzir o prêmio de risco", abrindo espaço para mais cortes da taxa Selic, "erodindo o carry, um dos maiores suportes do real".