Taxas de juros sobem na sessão, de olho em quadro eleitoral e sanções do Tesouro dos EUA

01/07/2026 às 18:14 atualizado por Arícia Martins - Estadão
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O ressurgimento do cenário político como fonte de incertezas para os investidores alterou a dinâmica dos juros futuros na segunda etapa do pregão desta quarta-feira, 1º. A sessão, que se encaminhava para modesta alta com realização de lucros, se transformou em uma disparada em bloco das taxas e renovação de máximas intradia no meio da tarde. O vetor de piora partiu de publicações no X (antigo Twitter) que deram a entender que o Intercept Brasil - veículo que denunciou a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro - teria engatilhadas novas reportagens envolvendo o senador do PL e pré-candidato à Presidência.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,985% no ajuste de terça a 14,02%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 14,23%, de 13,983%. O DI para janeiro de 2031 subiu de 14,157% a 14,33%.

A postagem de um repórter do Intercept no X, retransmitida por um filiado ao PT sem cargo político, foi realizada no início da madrugada desta quarta, mas circulou nas mesas de renda fixa por volta das 14h. O burburinho acentuou ainda mais a inclinação da curva num dia em que sanções do Tesouro dos Estados Unidos a cidadãos e empresas brasileiras e uma pesquisa eleitoral já impuseram cautela nos negócios. Enquanto a parte curta da curva seguiu bem ancorada, com alta de cerca de 5 pontos-base, os vértices intermediários e longos passaram a abrir mais de 20 pontos, mas o movimento perdeu força rumo ao fim do pregão.

Antes de os posts começarem a circular e alimentarem expectativas de novas denúncias contra Flávio, os agentes usaram as restrições dos EUA contra o Brasil, devido a suposta relação de indivíduos e empresas com o PCC, como justificativa para realizar lucros, avalia Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.

O pano de fundo externo de alta dos retornos dos Treasuries, aliado à pesquisa Atlas/Bloomberg - que mostrou o presidente Lula com 48% das intenções de voto para um segundo turno na disputa presidencial, e Flávio com 42,3% -, também representaram fatores de pressão sobre a curva, mas sem comparação ao evento da tarde, acrescenta Tavares.

A vantagem de Lula em pesquisas e a percepção de desidratação da candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro aumentam, na percepção do mercado, a probabilidade de que uma política fiscal menos austera continue no próximo governo.

"Os tweets saíram antes, mas começaram a circular na hora do almoço. A agenda política voltou a aparecer", aponta o economista, para quem o cenário eleitoral deve ter influência maior sobre os preços dos ativos domésticos neste mês, quando terão início as convenções partidárias.

Vale ressaltar, ainda, que o ambiente macroeconômico não parece incentivar apostas em queda expressiva das taxas, o que limita a devolução de prêmios nos DIs. Nesta quarta, foi a vez de o C6 Bank elevar sua projeção para a Selic ao final de 2026, de 13,5% para 14,0%, citando como justificativa a comunicação mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

"O balanço de riscos para a inflação está com assimetria altista - ou seja, há mais riscos para a inflação subir do que cair. Isso abre espaço para uma pausa, mesmo que temporária, no ciclo de cortes da Selic", diz Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, em relatório obtido antecipadamente pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

Em relatório sobre estratégias de alocação para este mês, o estrategista macro do BTG Pactual Álvaro Frasson avalia que, a preços de hoje, não há fatores que possam provocar surpresas baixistas na inflação e, consequentemente, renovem o otimismo com o ciclo de política monetária. Assim, o banco permanece com visão neutra para a curva de DIs em julho.