Taxas de juros sobem com risco fiscal, cenário político e aversão ao risco no exterior

16/07/2026 às 18:17 atualizado por Arícia Martins - Estadão
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O avanço dos juros futuros médios e longos perdeu tração ao longo da tarde, mas a curva a termo encerrou o pregão com ganho de inclinação. Segundo agentes, as taxas seguiram pressionadas pela preocupação com o quadro fiscal e político, uma vez que a nova rodada de tarifas dos Estados Unidos a produtos brasileiros é vista como ponto favorável à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na leitura do mercado, a continuidade do governo atual implicaria em postura mais expansionista nos gastos públicos.

Do lado externo, a influência também foi de alta sobre os contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs). Apesar da queda do petróleo, cujos contratos futuros fecharam com recuo de cerca de 0,8%, o conflito no Oriente Médio ganhou novos contornos nesta quinta-feira, 16, com ameaças de ataques à Arábia Saudita pelo Iêmen, que deve fechar um estreito no Mar Vermelho em nome do Irã. Os retornos dos Treasuries também subiram, devido a dados de atividade dos Estados Unidos que endossaram a percepção de uma economia resiliente.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu levemente, de 13,889% no ajuste anterior a 13,875%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,095%, de 14,029% no ajuste da véspera. O DI para janeiro de 2031 avançou de 14,246% no ajuste para 14,295%.

Sócio-fundador da Eytse Estratégia, Sérgio Goldenstein avalia que o que mais pesou sobre a curva de juros futuros foi a cautela com o cenário fiscal, a alíquota adicional de 25% imposta pelos EUA a produtos brasileiros - devido à visão de que a medida pode fortalecer o discurso político de Lula na eleição - e, por fim, alguma aversão a risco global, em razão da nova escalada de tensões entre EUA e Irã.

Em levantamento da Genial/Quaest, 51% dos entrevistados apontaram que veem responsabilidade do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no novo tarifaço. Para 42% deles, a tarifa de 25% aumenta a vontade de votar em Lula, enquanto 27% dizem o mesmo sobre Flávio.

"Uma reeleição de Lula eleva o risco fiscal. Não há dúvida sobre isso", observa Luciano Rostagno, estrategista-chefe e sócio da EPS Investimentos. Em sua visão, porém, com a agenda econômica fraca por aqui, o impulso aos DIs na sessão veio principalmente do exterior, pelo canal dos Treasuries.

Rostagno destaca, mais do que as vendas do varejo nos EUA, que vieram praticamente em linha com o previsto, o índice de atividade industrial da distrital do Federal Reserve (Fed) de Filadélfia, também conhecido nesta quinta. O dado saltou a 58,1 em julho, de 53,1 em junho - maior patamar em um ano e meio e acima da linha divisória de 50 que separa retração e expansão da atividade. "A percepção é que a economia americana continua resistente e que há risco de o Fed ter que subir juros ainda este ano", disse.

Destacando o dado das vendas, que avançou 0,5% na passagem mensal em junho, no conceito restrito, nos EUA, e também o indicador do Fed, Jan Hatzius, economista-chefe e diretor de Pesquisa de Investimentos Globais do Goldman Sachs, informa que elevou em 0,2 ponto a projeção para o desempenho do PIB dos EUA. Agora, para o segundo trimestre, a previsão é de alta trimestral de 2,4%, em uma medida anualizada.

Por aqui, o Tesouro Nacional conseguiu colocar no mercado 22,05 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN), de 23 milhões ofertadas, e o lote integral de 2,65 milhões de Notas do Tesouro Nacional - Série F (NTN-F). O risco ao mercado (DV01) superou em 60% o do certame anterior, nos cálculos da Warren Investimentos.

"O DV01 aumentou em relação ao último leilão, mas ficou mais concentrado no vencimento mais curto, o que considero uma medida acertada do Tesouro, possibilitando aumentar o volume emitido sem afetar muito a curva", apontou Goldenstein, da Eytse.