CNI: 45% das empresas industriais projetam alta do endividamento bancário nos próximos 3 meses

17/06/2026 às 17:37 atualizado por Flávia Said - Estadão
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Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgado nesta quarta-feira, 17, mostra que 45% das empresas industriais projetam alta do endividamento bancário nos próximos três meses. Segundo a pesquisa, o passivo das empresas deve aumentar no próximo trimestre em meio à maior necessidade de financiamento para honrar o pagamento de despesas do dia a dia.

A analista de Políticas e Indústria da CNI Maria Virginia Colusso afirma que a política monetária tem afetado as empresas industriais, principalmente, pelo encarecimento do crédito e pelo aumento das despesas financeiras. "Com o juro real em torno de 10% ao ano, as empresas enfrentam mais dificuldade para financiar capital de giro, rolar dívidas e sustentar investimentos", afirma.

No início da noite desta quarta, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vai divulgar a decisão sobre a taxa básica de juros, a Selic. A maior parte do mercado espera que o Copom corte a Selic em 0,25 ponto porcentual.

Mais da metade (51%) das empresas consultadas pela CNI espera aumento da necessidade de buscar financiamento em contas a receber no próximo trimestre, possivelmente associada ao risco de inadimplência ou atraso no pagamento dos clientes. A necessidade de financiamento em contas a receber surge quando uma empresa vende produtos a prazo, mas precisa de dinheiro imediato para pagar despesas do dia a dia.

Em relação aos juros das operações de financiamento de contas a receber, os resultados reforçam a percepção de um ambiente financeiro restritivo, uma vez que 45% das empresas consultadas projetam aumento das taxas cobradas pelos bancos, porcentual que sobe para 56% entre aquelas que devem aumentar a procura por crédito associado a contas a receber.

Para a CNI, os dados sinalizam que fatores como maior tempo de venda ou aumento dos custos de carregamento, por exemplo, podem ampliar a necessidade de recursos para sustentar os estoques de curto prazo. O financiamento de estoques é a necessidade de recursos para comprar, produzir ou manter mercadorias e insumos estocados até que eles sejam vendidos ou utilizados no processo produtivo.

Ao todo, 45% dos respondentes esperam elevação dos juros cobrados pelos bancos para financiar o estoque de insumos e mercadorias. O porcentual chega a 63% entre as empresas que devem aumentar a procura por crédito com essa finalidade.

Quando o assunto é a procura por crédito para financiar as contas a pagar, 59% dos respondentes esperam aumento nos próximos três meses. O financiamento de contas a pagar é uma estratégia de creditamento utilizada para honrar compromissos com fornecedores, tributos e despesas operacionais, garantindo capital de giro e evitando multas.

Mais da metade (52%) das empresas consultadas acredita que os juros dessas operações vão aumentar, porcentual que alcança 72% entre aquelas que devem aumentar a procura por crédito para financiar contas a pagar.

Em relação à evolução da margem líquida - porcentual de lucro líquido em relação ao faturamento -, 64% das empresas respondentes esperam redução nos próximos três meses. O resultado sugere que quase dois terços dos empresários antecipam queda da rentabilidade, refletindo a combinação de custos altos, despesas financeiras e tributos.

Como forma de mitigar a queda na margem líquida, 51% dos industriais devem aumentar os preços de venda nos próximos três meses, e somente 7% pretendem diminuí-los, apontando que parte da pressão de custos ainda será incorporada aos preços.

Ainda assim, 43% das empresas esperam manter os preços de venda. "Elas também são pressionadas por maiores custos financeiros, mas não realizam esse repasse pela possibilidade de perder mercado, especialmente frente aos produtos importados", pondera Maria Virginia.

A Consulta Empresarial visa captar a percepção dos industriais sobre os efeitos da política monetária nas empresas. A iniciativa busca acompanhar como a política monetária e as condições de crédito afetam diferentes dimensões da operação industrial, como capital de giro, custo financeiro, endividamento, margens, formação de preços, investimentos e demanda. Nesta edição, foram consultadas 183 empresas industriais entre 25 de maio e 8 de junho de 2026, distribuídas por 26 setores industriais em 20 unidades federativas do Brasil.