Abitrigo: safra, importações e cenário global elevam custos da moagem
São Paulo, 5 - A indústria brasileira de trigo vê com preocupação as perspectivas para a safra de 2026, diante da combinação de uma produção doméstica menor, maior dependência de importações e das incertezas geopolíticas que continuam pressionando o mercado internacional. Segundo nota da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), esse cenário aumenta os custos da cadeia de moagem e pode ter reflexos sobre toda a indústria de alimentos, embora não haja risco de desabastecimento do cereal no mercado interno.
O Brasil depende fortemente da importação de trigo, principalmente da Argentina, para atender ao consumo doméstico. De acordo com a Abitrigo, essa característica torna o País mais vulnerável às oscilações dos preços internacionais, da logística e do câmbio. "O Brasil não é autossuficiente em trigo e, por isso, qualquer turbulência externa tem impacto direto sobre custos, disponibilidade e previsibilidade do abastecimento", afirmou o presidente executivo da entidade, Rubens Barbosa.
No cenário externo, a entidade destaca que a continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia, somada às tensões no Oriente Médio, mantém elevada a volatilidade do mercado global de commodities. Segundo a Abitrigo, esse ambiente pressiona os custos de energia, combustíveis, fretes, seguros e logística, tornando mais cara a importação do cereal e dificultando o planejamento das indústrias moageiras.
No mercado doméstico, a preocupação recai sobre a redução da oferta nacional. Conforme projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de trigo de 2026 deverá ser 23,5% menor que a do ano anterior, resultado da combinação entre fatores climáticos e econômicos que reduziram a área cultivada. Com isso, a necessidade de importações em 2027 deverá aumentar em 1,9 milhão de toneladas.
Além da menor área plantada, a Abitrigo observa que o excesso de chuvas no Rio Grande do Sul, principal produtor nacional de trigo, gera apreensão em relação à produtividade, à qualidade dos grãos e ao volume efetivamente disponível da safra em colheita.
"Estamos diante de um cenário que combina menor oferta interna, maior necessidade de importação e custos internacionais mais elevados. Isso aumenta significativamente a complexidade da operação das indústrias moageiras", disse Barbosa.
Outro fator que preocupa o setor é o comportamento do mercado de farelo de trigo, importante coproduto da moagem. Segundo a entidade, a forte queda dos preços do milho reduziu a competitividade e o valor do farelo de trigo, diminuindo uma importante fonte de receita das indústrias e aumentando a pressão sobre os custos da farinha.
"Quando o farelo perde valor, parte importante da receita da indústria é afetada. Isso acaba pressionando o custo final da farinha e, por consequência, de diversos alimentos consumidos diariamente pela população. Diante desse cenário, garantir o abastecimento em quantidade, qualidade e custo adequados torna-se um desafio crescente", afirmou o executivo.
Apesar das dificuldades, a Abitrigo ressalta que não há risco de desabastecimento de trigo no Brasil. Segundo a entidade, o setor segue mobilizado para garantir o fornecimento contínuo do cereal, adotando medidas de planejamento, gestão de riscos e monitoramento permanente dos mercados nacional e internacional. "O setor está mobilizado, mas o contexto exige vigilância permanente para assegurar o abastecimento", concluiu Barbosa.



