Krugman Critica Tarifaço dos EUA ao Brasil e Defende o Pix: "Superou o Mercado"
Vencedor do Nobel de Economia afirma que sanções de Donald Trump buscam proteger operadoras de cartão e setor de criptomoedas, mas prevê efeito reverso e fortalecimento do governo brasileiro
O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman criticou duramente, em análise publicada nesta segunda-feira (20), a decisão do governo dos Estados Unidos de sobretaxar produtos brasileiros sob a justificativa de práticas comerciais desleais. A ofensiva do presidente Donald Trump tem como um dos alvos centrais o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil. Para o economista, a acusação de Washington não possui qualquer fundamento técnico ou comercial.
"Por que seria desleal um país oferecer aos próprios cidadãos uma forma melhor de fazer pagamentos? Desde quando é uma prática desleal uma empresa perder mercado para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?", questionou Krugman.
Segundo o economista, o sistema brasileiro — lançado há quase seis anos — tornou-se um fenômeno de adesão popular justamente por ser gratuito para pessoas físicas e ter custos irrisórios para empresas. Para Krugman, exigir que bancos operem o Pix no Brasil é algo tão natural quanto obrigar instituições americanas a aceitarem depósitos em dólares, descartando a tese de que isso represente uma concorrência desleal contra meios privados.
Protecionismo, cartões de crédito e o lobby das criptomoedas
Na avaliação do Nobel, a verdadeira motivação por trás do "tarifaço" imposto por Donald Trump com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 é a proteção de interesses corporativos. A expansão de um sistema público, gratuito e eficiente ameaça o modelo de negócios de gigantes americanas dos cartões de crédito, como Visa e Mastercard.
Krugman traçou ainda um paralelo direto entre a reação do governo Trump ao Pix e a postura da Casa Branca em relação às energias renováveis: em ambos os casos, o governo americano tenta frear inovações tecnológicas para proteger setores tradicionais ou aliados políticos, como as indústrias de combustíveis fósseis e o mercado de criptomoedas.
O economista apontou também para a forte resistência do Partido Republicano contra a eventual criação de um "dólar digital" pelo Federal Reserve (Fed). Para ele, essa oposição não ocorre por falhas técnicas, mas pelo medo de que uma moeda digital pública e eficiente diminua a busca por stablecoins e outros criptoativos. "A verdadeira preocupação é que funcionaria bem demais", afirmou.
Por que a retaliação dos EUA tende a falhar?
Krugman defende que a tentativa de punir o Brasil trará resultados limitados e pode gerar o efeito oposto ao desejado pela Casa Branca, tanto no campo político quanto no econômico:
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Pressão sobre a inflação americana: O governo dos EUA tem margem de manobra limitada para taxar pesadamente itens como café, suco de laranja e carne bovina. Como o mercado interno americano depende dessas matérias-primas brasileiras, encarecê-las significaria repassar a conta e inflacionar os preços para o próprio consumidor dos EUA.
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Fortalecimento político interno: Politicamente, a postura agressiva de Washington tende a dar palanque e fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao criar um discurso de defesa da soberania nacional e de um meio de pagamento que virou orgulho popular.
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Redirecionamento do comércio: Citando análises da economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, Krugman lembrou que as barreiras impostas pelos EUA no passado acabaram forçando o Brasil a abrir novas rotas comerciais com outros países, o que, no fim das contas, fortaleceu a posição do Brasil como potência exportadora global.
Embora alguns setores em Washington temam que sistemas públicos de pagamento possam desafiar a hegemonia global do dólar no futuro, Krugman conclui que o mercado brasileiro ainda é pequeno para alterar esse equilíbrio sozinho — alertando que um desafio muito mais relevante para a moeda americana será a eventual criação do euro digital pelo Banco Central Europeu (BCE).
Fonte: Estadão



